Tenho dormido de menos, às vezes demais. A vontade de fumar voltou forte, e talvez penso até mesmo em me permitir tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Pouco depois de acordar, olho à minha volta a paisagem de todo dia, sinto atravessada, não sei se na garganta ou no peito ou na mente - não importa - essa coisa, chamo com cuidado, de “uma ausência”. E há momentos em que esse osso duro se transforma numa espécie de coroa de arame farpado sobre minha cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no meu coração. Atravesso o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminho devagar pela casa, abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Conto nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, penso com alívio. E morbidamente enumero todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram meus ombros e os dos meus amigos. São tantas que desisto de contar. Então finjo - aplicadamente - acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saiba que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, penso com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os meus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou que sinto uma vontade absurda de tomar atitudes como tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de mim e corra a me socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à minha volta e limpando o suor frio de minha testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreio quase segura as vontades impossíveis. E tenho medo.
Conto nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, penso com alívio. E morbidamente enumero todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram meus ombros e os dos meus amigos. São tantas que desisto de contar. Então finjo - aplicadamente - acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saiba que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, penso com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os meus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou que sinto uma vontade absurda de tomar atitudes como tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de mim e corra a me socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à minha volta e limpando o suor frio de minha testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreio quase segura as vontades impossíveis. E tenho medo.

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